Menu

Crítica | O Melhor Que Podíamos Fazer: Memórias Gráficas

Em anos de propagação de discurso de ódio, Thi Bui entrega trabalho autobiográfico tocante, com uma narrativa inovadora e capaz de te causar a sensação de levar um soco no estômago. 

03/11/2017 – 11:00 RAMON VITOR 

A graphic novel “O Melhor Que Podíamos Fazer” é o projeto autobiográfico da artista vietnamita Thi Bui que narra a história do processo de imigração que sua família passou para ir do Vietnã até os Estados Unidos por complicações da guerra. A narrativa se passa a partir do momento em que a autora entra em trabalho de parto, e começa a narrar a origem de sua família refletindo sobre os ensinamentos passados por seus pais durante sua criação. Resumindo toda trama em uma linha, basicamente temos aqui uma jornada por compreensão.

Este é o trabalho pioneiro da Bui, que demorou mais de dez anos para ser feito e consequentemente conseguir ser publicado por uma editora. Mas não é para menos, com o tanto de cuidado narrativo facilmente observado em todas as cerca de 300 páginas contidas no livro, não é de se espantar nem um  pouco a demora para sua finalização. Olhando pelo lado positivo da coisa, ele não poderia ser publicado numa época melhor que esta, onde vivenciamos um grande crescimento da intolerância no mundo todo, perante crises de refugiados da Síria e caçada a imigrantes nos EUA.

Para quem não conhece a história do Vietnã, não se preocupe, pois a narrativa se compromete a contar  ela todinha do ponto de vista de uma refugiada, combatendo até em certo momento a visão dos americanos sobre aquela guerra, onde eles se saiam como os bonzinhos e pensaram  que ela acabou com a retirada de suas tropas das terras asiáticas. Aqui você consegue sentir o drama e o sufoco que é tentar fugir do horror da guerra para proteger sua família sem saber se eles vão conseguir terminar todo o processo com vida. A graphic novel também possui algumas críticas sociais voltadas ao tratamento dos americanos com os imigrantes que lá vivem.

Narrativa não linear pode ser um problema e tanto para graphic novels, pois você tem a obrigação de situar seu leitor nas transições de sua linha do tempo, acontecendo muitas vezes de prender a narrativa, ou até mesmo deixar seu público confuso, em outras palavras, é algo que tira o leitor da história facilmente. Mas não é o caso da obra vietnamita, pois ela usa deste estilo narrativo do começo ao fim e torna possível  a fácil interpretação de suas sutis transições de tempo.

O traço da autora retrata muito bem as expressões muitas vezes de medo ou esperança refletidas por seus personagens, além disso a coloração com diferentes tons de vermelho foi uma ideia genial, pois consegue ditar muito bem o tom das cenas, causando algumas vezes impacto, e outras suavizando os momentos contidos nas páginas. A junção da sutiliza do roteiro com genialidade da arte faz com que a leitura não fique cansativa, e cause uma sensação de urgência para ser concluída logo.

No fim, quando a autora termina sua jornada por compreensão, a história consegue amarrar bem direitinho o seu arco narrativo, refletindo muito bem o seu título. Quando o leitor parar de se derreter em lágrimas com certeza vai levar os ensinamentos contidos aqui para o resto da vida. Para aquela pessoa que acabou de colocar uma criança neste mundo, esta graphic novel tem muito mais poder de efeito, e torna-se quase que uma leitura obrigatória.

Tocante e devastador, o quadrinho cumpre sua proposta com perfeição, e coloca em evidência no mercado a advogada, professora e agora quadrinista Thi Bui como uma das grandes revelações de 2017. Portanto “O Melhor Que Podíamos Fazer” definitivamente é uma graphic novel de alto nível gráfico e narrativo que você deve ler e guardar na prateleira ao lado de obras como Persepolis, Habbi, Retalhos e Maus. É importante parabenizar também a editora Nemo, que em tempo recorde trouxe este material para o Brasil no mesmo ano de seu lançamento oficial nos Estados Unidos, que inclusive foi a primeira edição traduzida e lançada fora da América.

Capa comum: 336 páginas;
Editora: Nemo;
Idioma: Português;
ISBN-10: 8582864132;
ISBN-13: 978-8582864135;
Dimensões do livro: 24 x 16,8 x 2,2 cm;

NOTA: 4,7/5

COMPRE AQUI COM DESCONTO!

Em anos de propagação de discurso de ódio, Thi Bui entrega trabalho autobiográfico tocante, com uma narrativa inovadora e capaz de te causar a sensação de levar um soco no estômago.  03/11/2017 - 11:00 RAMON VITOR  A graphic novel "O Melhor Que Podíamos Fazer" é o projeto autobiográfico da artista vietnamita Thi Bui que…
NOTA DO CRÍTICO: 4,7/5

Nota do Leitor Seja o primeiro!
100

Ramon Vitor
Nerd, cinéfilo e um estudioso da música. Este é Ramon.